Do Blog Sergio Boechat

VOLTA REDONDA - UM CASO DE ENVELHECIMENTO PRECOCE!

No dia 17 de julho de 1954, surgia a cidade de Volta Redonda, que nasceu em um berço de ouro ou melhor, de aço, predestinada a ser uma cidade forte, bonita e rica, porque seria a anfitriã da primeira e mais importante siderúrgica da América Latina, a Companhia Siderúrgica Nacional, carinhosamente chamada de CSN. Pleno emprego, muito dinheiro, excelente estrutura física e a cidade foi se transformando no eldorado brasileiro da época, atraindo outras empresas e se transformando no principal polo econômico e político do Sul do Estado.


Sofreu o primeiro grande baque na privatização da CSN, vendida a preço de banana, em que só o estoque da empresa era maior que o preço pago, com dinheiro do BNDES, no Governo Itamar Franco. Levou de brinde mais de 15 milhões de metros quadrados de terrenos que pertenciam à cidade e ainda levou o Hotel Bela Vista, o Recreio do Trabalhador, a Fazenda Santa Cecília e a Cicuta, uma reserva ambiental. Deixou a cidade sem terra para se expandir e com uma alta taxa de desemprego, tudo isso agravado por uma briga inconsequente da Prefeitura com a empresa que ainda é a maior empregadora, individualmente, na cidade.

Hoje a cidade completa 56 anos! A cidade já teve 16 Prefeitos eleitos pelo sufrágio popular e 04 interventores, nomeados pelos governos militares, quando a cidade foi declarada de interesse da segurança nacional, sendo então impedida de escolher livremente o seu governante. Foi um longo período de 09 anos, cabendo a cada interventor, em média, pouco mais de 02 anos, mas em 1985, em eleição disputadíssima, foi eleito Prefeito o médico Dr. Marino Clinger, então o Vereador mais votado nas eleições de 1984 e até hoje, imbatível.

Para uma cidade, 56 anos equivale à adolescência, mas Volta Redonda está sofrendo atualmente de uma doença chamada progeria ou “envelhecimento precoce”. A palavra progeria é derivada do grego e significa “prematuramente velho”. É uma doença genética, nos seres humanos, extremamente rara, que acelera o processo de envelhecimento em cerca de sete vezes em relação à taxa normal, isto é, a cidade parece ser muito mais velha, com aparência de ter mais de 300 anos. No caso da Cidade do Aço não é uma doença genética, mas provocada pela negligência, pelo autoritarismo e pela incompetência dos seus governantes, que não souberam planejar nem conduzi-la ao seu grande destino, permitindo que a sua estrutura se deteriorasse e ela perdesse o bonde da história.

E quais são os sintomas desse “envelhecimento precoce”? O autoritarismo, que foi uma marca dos anos 60 e 70, anulando totalmente a possibilidade do diálogo, como vem acontecendo em Volta Redonda nos últimos 13 anos; a centralização, que é uma herança do absolutismo, o poder concentrado nas mãos de uma só pessoa, que decide tudo por todos; a falta de planejamento, que é uma volta ao século XIX, em que tudo se improvisava, com soluções casuísticas e na maioria das vezes desastrosas; a falta de alternância no poder, que lembra as dinastias, principalmente as europeias e uma estrutura administrativa ultrapassada, obsoleta, pesada e lerda. O poder passa sempre para alguém do mesmo grupo, que pensa da mesma forma, com a mesma incompetência, para que não perca as benesses do poder.

Em relação aos seres humanos, o “envelhecimento precoce” é degenerativo e incurável , mas em relação às cidades, é reversível. Um bom administrador, com visão de futuro, com um projeto para a cidade e com uma equipe profissional e competente pode devolver à cidade o vigor da juventude, devolvendo-lhe a perspectiva de futuro e colocando-a no Século XXI, com todos os recursos tecnológicos que ela ainda não conhece. A cidade precisa de um tratamento de choque: Um choque de competência, um choque de legalidade, um choque de moralidade, um choque de transparência e um choque de ética.

O atual governante do município está há quase 14 anos tentando “construir” a “cidade em que sonhamos morar um dia”, mas os problemas continuam existindo: Uma Educação de má qualidade; uma saúde caótica; recursos públicos mal gastos; praticamente nenhum emprego gerado; lixo sem tratamento; contratações irregulares de pessoal; contratos sem licitação e uma série infindável de irregularidades conduzidas pelo Prefeito e por uma equipe nada profissional e que, na sua grande maioria, nada mais tem a acrescentar à administração de Volta Redonda. É o fim de um ciclo, que não vai deixar saudade.

Apesar de tudo isso, Volta Redonda está de parabéns, não pelos governantes que tem, mas pelo seu povo, pela sua história, pela sua garra, pelo seu potencial e pela sua capacidade de resistir tantos anos a tanta incompetência. Que nunca percamos a esperança de mudar o quadro que aí está, revertendo situações que até pareciam irreversíveis há alguns anos, mas que hoje podem ser totalmente mudadas, nos fazendo esquecer o “envelhecimento precoce”
que tentaram impor à Cidade do Aço.






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