EM MEMÓRIA DE WILLIAN, WALMIR E BARROSO

Neste dia 9 de Novembro relembraremos a histórica luta dos cidadãos William, Walmir e Barroso, funcionários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) que lutaram em 1988 pelo turno de 6 horas e foram covardemente assassinados em Volta Redonda.  
Um Memorial projetado por Oscar Niemayer foi construído em frente à umas das entradas na Usina, na Vila Santa Cecília e parece ser o único resultado de tantas lutas e protestos, visto que a maioria dos funcionários da CSN ainda hoje convivem com injustiças e baixos salários.
Em homenagem às famílias e à todos os cidadãos que lutaram e ainda lutam por qualidade de vida e condições melhores de trabalho, este blog publica hoje um texto que explica melhor o trágico acontecimento.

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William Fernandes tinha 23 anos, Valmir Freitas tinha 22 e Carlos Augusto Barroso tinha apenas 19 anos. Eram operários metalúrgicos na Companhia Siderúrgica Nacional - CSN , em Volta Redonda, Rio de Janeiro. 
No dia 7 de novembro de 1988, assim como outros quase vinte mil metalúrgicos da empresa, iniciaram uma greve reivindicando direitos assegurados pela legislação. Não estavam exigindo nada extraordinário... apenas o que a Lei garantia! 

No dia seguinte, depois do almoço, dezenas de veículos do exército lotados de soldados começaram a chegar na cidade e cercar a empresa onde os operários permaneciam em greve. Os jornais começavam a conhecida campanha antitrabalhador, dizendo que os grevistas eram radicais e não queriam negociar, acusavam o sindicato de estar insuflando a greve para prejudicar as eleições e outras mentiras conhecidas por nós. 
No dia 9 de novembro a população da cidade havia marcado um Ato de apoio aos operários em greve. Pouco antes do início da solenidade, o exército passou ao ataque. Durante várias horas os tiros e explosões tomaram conta do cenário. A violência foi registrada por vários jornais e revistas, inclusive filmada por canais de TV. 

Valmir foi atingido por um tiro na nuca e gritou "Está doendo, acho que me acertaram". Barroso, além dos tiros recebidos, teve o crânio esmagado por coronhadas de fuzil. William estava voltando do refeitório na hora que os soldados começaram a atirar. Foi surpreendido e, mesmo atingido pelos tiros, ainda andou cerca de 30 metros. Quando caiu, seus companheiros viram que já estava morto e carregaram o corpo para junto dos soldados, pedindo atendimento. 

Durante a madrugada, o Sindicato conseguiu ainda identificar cerca de trinta metalúrgicos feridos por balas dos soldados e mais de duzentas pessoas foram atendidas nos hospitais em decorrência das violências dos militares no centro da cidade. 

Mesmo com a morte dos operários, a greve continuou. Só no dia 23 de novembro a direção do Sindicato foi convidada para uma reunião com a empresa que aceitou todas as reivindicações: pagar os atrasados, implantar o turno de 6 horas e reintegrar todos os trabalhadores demitidos. 

Depois de dezessete dias de greve, os metalúrgicos sentiam a vitória e lamentavam, apenas, as três vidas roubadas pela violência do governo. Mas o Sindicato fez uma outra exigência: os metalúrgicos só voltariam ao trabalho quando não houvesse mais soldados na empresa. 

Os jornais noticiaram esta saída dos militares e o jornal O Globo noticiou assim: "O Exército começou a deixar a Usina Presidente Vargas, em Volta Redonda, exatamente às 13h 40m, quando uma Veraneio cheia de oficiais cruzou os portões da entrada Leste da empresa, no bairro do Jardim Paraíba. A seguir passaram 71 veículos, entre caminhões, jipes, ambulância e caminhonetes, além de oito tanques. Às 13h 45m, o último veículo deixou a empresa." 

A greve acabou e, às duas da tarde, entravam para trabalhar os primeiros metalúrgicos do turno da tarde. No portão da empresa, os demais companheiros e a população de Volta Redonda aplaudiam os que entravam e gritavam o nome de William, Valmir e Barroso.
Encerrado o movimento grevista, os jornais passavam a dar atenção às notas oficiais do governo e do exército. As manchetes eram marcantemente favoráveis aos militares: "Exército diz que combateu guerrilha em Volta Redonda", "Foi a maior resistência organizada até hoje", "Houve uso de técnicas de guerrilha urbana", etc. 
Em nota oficial, o Comando do Estado Maior do Exército acusava o Sindicato de haver contratado pessoas estranhas à categoria para ensinar técnicas de guerrilha para os metalúrgicos e diz que os operários estavam armados no interior da Usina. A nota diz ainda que foram lançados coquetéis Molotov contra os carros do exército e que "os operários estavam dispostos a tudo". 

O general que comandou as tropas virou ministro do Supremo Tribunal, nomeado por FHC, e declarou que não se arrepende porque "estava cumprindo ordens e defendendo a democracia". 

Juarez Antunes, presidente do Sindicato e eleito prefeito da cidade naqueles dias tumultuados, morreu em um acidente de automóvel 51 dias depois de sua posse. 

Passando em Volta Redonda, hoje, bem em frente da entrada principal da Usina e marcando o local onde teve início a agressão, você verá um Memorial. São três placas de concreto, verticais, atravessadas por uma lança. No alto, você lerá: "A William, Valmir e Barroso, a homenagem de seus companheiros." 

O Memorial foi inaugurado no dia 1° de maio de 1989 e derrubado por uma bomba no dia seguinte. Até hoje não se conhece a autoria do atentado, mas o Memorial está novamente lá, de pé, levantado pelos próprios metalúrgicos que trabalharam em regime de mutirão, e mantendo as marcas da bomba como cicatrizes no corpo. 



Texto de Ernesto Germano Parés.

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