CARTA ABERTA AO PREFEITO ANTÔNIO FRANCISCO NETO

A carta abaixo explica os reais motivos que fizeram o jornalista Cláudio Alcântara ser demitido do jornal ‘Diário do Vale’, depois de quase 20 anos de casa







Senhor prefeito Antônio Francisco Neto,

Fofocas e boatos. Duas coisas que em mais de 20 anos de profissão nunca foram matéria-prima do meu trabalho. Escolhi construir minha carreira com base em fatos, opiniões e informações. No entanto, desde que fui demitido do jornal “Diário do Vale” na segunda-feira, 18 de junho, aquelas duas palavrinhas que abrem esta carta se tornaram frequentes na minha vida. No começo, achei estranho, depois percebi que isso é natural. Afinal, não sou nenhuma celebridade, mas trabalhava no jornal mais lido da região, que tem o site mais acessado do Sul Fluminense, tinha a coluna (“Olho Vivo”) mais comentada, polêmica e com o maior número de visualizações em sua versão para a internet. Então, os amigos, os conhecidos, os colegas, o público em geral, querem saber o que aconteceu. Assim como eu, todos foram surpreendidos com a notícia. Por isso, resolvi escrever ao Senhor, prefeito, para colocar um ponto final nisso tudo, e seguir em frente. Posso estar certo ou errado, mas vou fazer do jeito que eu aprendi, colocando os dois lados da notícia - regra básica do jornalismo. 

Depois de fechar o caderno principal do “Diário do Vale”, no plantão de domingo, 17 de junho, como fiz a cada 15 dias durante anos, e de trabalhar meio expediente na segunda, a editora-chefe do jornal me chamou à sala de reuniões e disse que não tinha uma boa notícia. Sem dar detalhes, contou que houve uma reunião e que, para “cortar gastos”, a empresa teria que demitir. Afirmou que o diretor-presidente do “Diário” exigiu que um editor fosse demitido e que eu tinha sido o escolhido. “Eu tentei te segurar, mas não deu”, foram essas as palavras da editora. Nada mais. Nem um abraço de despedida, nem um telefonema nem um e-mail nem aquela tradicional frase que ela diz para todos que saem do DV: “As portas estão abertas, quem sabe no futuro você volte a trabalhar na empresa”. Isso ela não disse para mim. Juntei minhas coisas, me despedi dos colegas e fui embora. 

A decisão de me demitir veio “de cima”, como fiquei sabendo mais tarde. E, por coincidência, exatamente depois das denúncias contra a Prefeitura de Volta Redonda serem publicadas no meu Facebook. A alegação de “contenção de despesas” pode ter sustentação pelo fato de que um estagiário da redação também foi demitido (ele já seria, como a própria editora-chefe havia me dito uma semana antes, e o motivo não era cortar gastos), além de funcionários de outros setores. Triste, mas “normal”. O que gerou a onda de fofocas e boatos é que a empresa tinha opções bem mais racionais, práticas e menos injustas para “conter despesas” sem demitir o editor mais antigo da casa. Ninguém quer ver colegas de trabalho desempregados, muito menos eu. Mas qual a lógica da escolha? Outros editores não têm nem a metade do tempo de serviços prestados ao jornal. Havia ainda a opção de demitir uma repórter, que já pediu para se desligar da empresa. 

O que o Senhor, prefeito, tem a ver com isso? Todas as denúncias publicadas na minha rede social viraram pautas em outros jornais e blogs, definidos pela editora-chefe como “de oposição ao Neto”. A direção da empresa não gostou disso e a editora chegou a afirmar que eu não poderia autorizar a reprodução dos meus textos por esses veículos, esquecendo-se de que ninguém precisa de autorização para usar material postado no Facebook. Entendo que eu não precisava do aval do DV para me manifestar como cidadão fora da empresa, mesmo assim, não fiz nada pelas costas e comuniquei ao jornal que estava postando denúncias contra a PMVR. Resposta da editora: “No seu Facebook e no seu blog você pode publicar o que quiser, só não pode fazer qualquer tipo de ligação com o Diário do Vale”. O que ela quis dizer com isso? Que eu não poderia assinar as denúncias, dizendo que era funcionário do jornal. Não assinei. Mas o blog do Sérgio Boechat, por exemplo, publicou o meu texto e mencionou não apenas que eu trabalhava no “Diário” como publicava a coluna “Olho Vivo” no DV, às terças-feiras.

Aparentemente estava tudo bem, mas dias depois veio a demissão. Logo após a minha saída do DV, a editora-chefe garantiu que a escolha do meu nome para a lista dos demitidos nada teve a ver com as denúncias postadas por mim, mas não explicou qual foi a lógica da coisa. Voltou a repetir apenas que a “decisão veio de cima”. Ao não falar sobre o caso abertamente, o jornal deu margens a fofocas e boatos envolvendo o meu nome e o seu, Senhor prefeito. A demissão deixou de ser um caso pessoal, restrito entre empregador/empregado, e ganhou aspecto público, com suspeita de interesses políticos. 

Essa versão sobre a causa da minha demissão chega a ser assustadora. O Senhor teria se reunido duas vezes com o diretor-presidente do “Diário do Vale” e pedido a minha demissão. Um dos argumentos seus seria o de que as minhas denúncias estavam repercutindo mal, simplesmente pelo fato de eu ser funcionário do DV. O Senhor teria ainda lembrado ao diretor do jornal que a Empresa Jornalística Diário do Vale recebeu da prefeitura só em abril a quantia de R$ 192.800,00. E que isso poderia ser um bom argumento para me demitir. 

Não devo nada ao “Diário do Vale”, assim como a empresa entende que não deve nada a mim. Nesses quase 20 anos de prestação de serviços, sempre mantive a relação patrão/empregado com respeito e nunca misturei amizade com profissionalismo. Sempre cumpri à risca a linha editorial do jornal, obedecendo a todas as regras, porque o cargo que eu exercia (editor e não repórter, como consta na minha Carteira de Trabalho) era de confiança. Mesmo assim, ninguém nunca me viu em mesas de bares com os diretores e editores nem nas festas promovidas pela empresa. Opção minha. Pode ser que as denúncias no meu Facebook tenham feito o jornal perder a confiança em mim, porém, garanto que enquanto estava no trabalho minha conduta era rigorosamente o “olhar” que o DV tem sobre cada notícia. 

O respeito ao “Diário do Vale” continua, afinal, não ficaria lá quase 20 anos, se pensasse diferente. E não é pelo fato de ter sido demitido que vou sair por aí falando mal do jornal. Não faria isso. Estou apenas decepcionado com o DV. Minha indignação não é com a empresa, é com o mais forte. E o Senhor sabe muito bem disso. 

Esses são os dois lados da notícia, Senhor prefeito. Fiz o meu papel de jornalista, agora cabe à população escolher em qual das duas versões acreditar. Eu, assim como muitas pessoas, não acredito em coincidências. 

Cordialmente 


Cláudio Alcântara, jornalista e ex-funcionário do ‘Diário do Vale’

3 ✎ Comentários :

Anônimo disse...

Achei ingênua a cartinha do Cláudio.
Hummm a verdade é custo mesmo. O Jornal vai bem sem ele e sua desnecessária participação. Se queria aumento ganhou um pé na bunda. Está arrumando um factóide para atingir o Jornal envolvendo política. Vê se a rede social, gente o Facebook do Claudinho ia afetar o Neto. O Diário ficou mais leve sem este carma.

Anônimo disse...

Não vejo nada demais em um empregado com mais de 20 anos de casa ser demitido. Agora, jogar isso dessa forma acho um tanto desnecessário, principalmente em epoca de eleição onde incrivelmente aparece de tudo, ate um jornalista recém demitido querendo a "fama" com dor de cotovelo. Francamente.

Anônimo disse...

Tirania. O DV é vendido a prefeitura e descaradamente usa recursos plúblicos para manter linda a imagem de um prefeito corrupto. Cláudio vc é vítima do Império da Cervejinha onde VR se tornou dominada pela corrupção.

#foraneto

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