ARTE PARA A INCLUSÃO

Semana Acadêmica de Pedagogia do UGB (Centro Universitário Geraldo Di Biase) traz Rodrigo Hallvys entre seus palestrantes. Campus de Volta Redonda recebeu sua palestra no dia 17 de outubro e Barra do Piraí receberá no dia 29.




TABLOIDE FLUMINENSE – Rodrigo, embora você trabalhe com Arte, você levanta a bandeira da formação na consciência das pessoas. Qual seria o seu “fio condutor” mais preciso?

RODRIGO HALLVYS – A própria Arte. Vejamos: arte é uma produção baseada em um contexto histórico e/ou cultural, onde o artista refletiu sobre algo, tomou apropriação de conhecimento em cima deste algo e produziu sua arte com intuito de causar uma discussão ou reflexão de seu ponto de vista sobre este mesmo algo. 

TF – E isso é o que deixa claro o que é ou não é arte quando as pessoas forem avaliar a qualidade? A diferença entre arte e entretenimento?

RH – Em base é isso. Daí vem a avaliação da técnica e recursos utilizados para a produção daquela obra. 

TF – Mas não é desta forma que se é ensinado o que é Arte nas escolas...

RH – Isso foi a minha discussão na monografia da minha graduação de Licenciatura em Artes. 

TF – Como foi exatamente?

RH – O título foi “Ensino da Arte: Equívocos e discussões”. Ali eu discuti falhas que pesquisei em todos os patamares da Educação. Desde o PCN Artes – com uma entrevista que encontrei de Ana Mae Barbosa (a precursora do ensino da Arte no Brasil), passando pelo problema no Estado do Rio de Janeiro, a visão municipal de Volta Redonda, as posturas das gestões escolares, a formação do docente... até chegar na vida social do discente. O sistema inteiro apresenta falhas já por não conseguir deixar claro para a clientela o que é arte e os benefícios da mesma para a formação do ser humano. Temos um governo que não entende arte como desenvolvedora de conhecimento ativo e transformador. Ou, quando entende, fica com receio de não dar conta dos movimentos criados pela população.

TF – Como um educador pode contribuir nesta visão quanto à arte?

RH – Consumir e discutir arte. Deixar clara a função da arte e como ela é útil na formação das pessoas. Causar estímulos para que as pessoas consigam avaliar o que é arte e o que não é arte. Assim, com o tempo, contribuirá até para o público ficar mais exigente e começar a não aceitar consumir entretenimento vazio e sem qualidade. 

TF – Medo?

RH – Talvez sim. Qual governo que não quer uma população enaltecendo-o? A população fica bajulando figuras políticas como se fossem muito especiais. Esquecem que estas figuras nada mais são do que funcionários públicos que foram eleitos apenas para fazer o trabalho de GERAR condições para a população. Não fazem nada mais do que suas obrigações quando são eleitas. E a população fica tratando como se fosse Deus fazendo milagres. 

TF – E quanto a sua participação na “Semana Acadêmica de Pedagogia”? Como foi isso?

RH – Um convite que me deixou muito satisfeito. Eu me formei em 2010, e ainda lembram de mim depois deste tempo todo. Fico feliz porque isso demonstra o carinho que a instituição tem por meu trabalho. Fiz parte da primeira turma de Arte formada no UGB. Era uma turma com figuras de características muito próprias, pessoas com comportamentos muito marcantes. Então, se dentre todos, lembraram de mim, tenho que ficar feliz. Quando a coordenadora do Curso de Licenciatura em Pedagogia, Professora Luiza Angélica Paschoeto, me convidou, aceitei na hora. O tema precisa ser discutido e refletido. 

TF – O tema é “Educação inclusiva”, certo?

RH – Sim. 

TF – Qual a sua experiência?

RH – Eu passei alguns meses desenvolvendo técnicas de interpretação teatral com oito alunos surdos, no colégio Marcelo Drable, em Barra Mansa. Isso foi no segundo semestre de 2008. Saí dali com uma melhoria em mim mesmo. Ver a sensibilidade de pessoas que não tinham como ouvir e falar, mas que conseguem passar seus sentimentos em informações que não são sempre baseadas em Libras. Eles desenvolvem o olhar periférico de uma forma incrível simplesmente pelo fato de não terem audição completa como a nossa. Combinei que eu ensinaria Teatro a eles e, em troca, me ensinaram sua língua. O convite para este trabalho foi da professora Andrea Almeida. 

TF – E como você discute a importância do ensino da Arte para a inclusão destas pessoas?

RH – Exatamente no ponto de vista que tenho quanto à Educação. Professor não pode ser um formador de opinião, mas sim, um estímulo para que o discente reflita e projete sua própria opinião quanto cada assunto. Dentro de sua própria vivencia e experiência. O docente e a gestão educacional precisam gerar oportunidades. Desenvolver e estimular um cidadão participativo e crítico a ponto de ele mesmo buscar e sugerir formas de transformação da sociedade. 

TF – Tarefa difícil?

RH – Sim. Mas cada vez que um ex-aluno diz que lembrou de mim por algo que eu gerei e que refletiu, carregando para o resto de sua vida, sinto que eu consegui exercer a função não só de professor, mas também de artista. 

TF – Em que sentido?
RH – Hoje em dia eu não dou aulas. Mas continuo trabalhando com reflexão através do meu trabalho. Se eu não fizer isso, vou deixar de fazer arte para fazer apenas um produto sem conteúdo. 

TF – Mas você fazia como terapia?

RH – Não. Existe a Arte-terapia. É um outro seguimento importante para a inclusão, mas não era o meu formato. Inclusive tenho amigos que estão fazendo pós-graduação em Arte-terapia e estão elogiando o curso. 

TF – E o que este assunto modificou em você?
RH – Como artista, me fez refletir mais sobre o comportamento humano. Como pessoa, me fez ser mais humano. E como professor, me deu gás para buscar propostas que dessem oportunidade a todos os meus alunos. Meu irmão, Diego Machado, disse em sua oratória de graduação “As leis são iguais para todos. Mas as pessoas são diferentes e devemos respeitá-las por isto”. E é assim mesmo que precisa funcionar. 

TF – Qual seria o segredo?

RH – Entender o que é arte e respeitar o tempo de cada pessoa. Pessoas com necessidades especiais se esforçam para se adaptar ao mundo dos que se dizem “normais”. Mas estes últimos precisam também gerar condições para que as pessoas com necessidades estejam juntas. Ninguém quer se sentir excluído. É algo que dói, com toda certeza. Precisamos respeitar a subjetividade das pessoas. Aceitar suas limitações e buscar formas de superação. 

TF – Alguém já achou estranho você pensar assim?

RH – Eu é que já estranhei algumas posturas. Já me falaram: “Mas eu não tenho ninguém assim na minha família”. E eu já penso logo: “Agora, né?". As pessoas precisam se preparar porque hoje alguém pode se acidentar, amanhã você poderá ter de lidar com esta realidade. Quanto mais preparo, menos sofrimento e mais inclusão. Não é para desesperar, é para respeitar e buscar formas de vivência plena. 

TF – Quer deixar uma frase para os leitores?

RH – Primeiro quero deixar o convite para participarem da Semana Acadêmica. E o que eu deixaria de frase é algo dito por uma das professoras que eu tive na faculdade, Marilane Confort: "O que nos faz iguais é que somos todos diferentes”. 

Foto: Donizete
Arte gráfica: Júnior Ernesto

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