TABLÓIDE FLUMINENSE ENTREVISTA: ADELSON VIDAL ALVES

 “O PT impôs um retrocesso na democracia política do país.”

Graduado em História, com Pós-Graduação em História Contemporâneo, Adelson Vidal Alves é voz crítica ao PT e seu governo. Para ele, Lula e Dilma promoveram um “retrocesso na democracia política do país”. Leitor de Marx e seus herdeiros como Gramsci, Adelson diz que falta ao Brasil uma esquerda democrática. A seguir, a entrevista que concedeu ao Tabloide Fluminense, onde também fala das eleições de Outubro e sua polêmica com Sérgio Boechat. 



TF: Como você avalia a atual situação do país? 

Adelson: Vejo com preocupação. O PT impôs um retrocesso na democracia política do país. Já no seu DNA está presente o desconforto com o jogo democrático. Basta lembrar que ele votou contra a Constituição mais avançada de nossa história e que não foi ao colégio eleitoral de nossa redemocratização. De forma paradoxal, foi ele o maior beneficiado pelos avanços institucionais do Brasil, conseguindo em pouco mais de 20 anos de existência eleger e reeleger um presidente da República. No comando do Estado, rejeitou tudo que propunha para se agarrar a um projeto de poder. Hoje, depois de três mandatos presidênciais, nos legou um país com avanços, mas submetido a uma lógica que impede a emancipação cidadã dos brasileiros. 

TF: O PT atribui à Imprensa a invenção do mensalão. Como você vê isso? 

Adelson: Isso é mistificação. O mensalão é o maior esquema de corrupção da história da República brasileira. Está tudo comprovado em mais de 50 mil páginas processuais, documentos, dezenas de testemunhas, tudo avaliado em um julgamento de 8 anos na mais alta Corte do país. Uma Corte que não pertence a um regime ditatorial, mas sim de uma republica democrática. De modo que negar o mensalão é ingenuidade, loucura ou má fé. 

TF: Você se diz de esquerda, mas muita gente acha que você foi pra direita. Como você responde a eles?

Adelson: Tem muita gente com uma visão dogmática da esquerda. Para eles, ser esquerda é vestir-se de vermelho com a foto do Che Guevara no peito, aplaudir Fidel Castro e Hugo Chavez, dizer que o Estado burguês e trabalhar para construir uma ditadura do proletariado. Mas é bom que se diga que esta é a visão de uma esquerda, que diga-se de passagem, está caduca. Lembremos que esta esquerda chegou a defender a ação de vandalismo dos Black blocs. Eu me considero parte de uma esquerda democrática, ainda em construção no Brasil, mas que busca transformações sociais pela via da democracia e em respeito à Constituição e o Estado de direito. 

TF: Você acha que é possível chegar ao socialismo só por eleições? 

Adelson: Eu particularmente abandonei uma expectativa solitária de socialismo. Já não tenho no meu horizonte projetos finalísticos. Penso que podemos operar mudanças substanciais nas estruturas sociais, construir uma nova ordem social que, não necessariamente, se chame socialismo ou responda na íntegra por seu conteúdo. É claro que mudanças como essa não se dão apenas por eleições, elas dependem de uma atuação forte da sociedade civil e seus organismos. Depende de uma articulação dos vários atores sociais, resolvendo seus conflitos por consensos e pactos, sempre respeitando a ordem democrática.

TF: você cita muito Gramsci nos seus artigos. O que você vê nele que faça de seu pensamento algo tão importante?

Adelson: Gramsci não é o único pensador a explicar a realidade atual, mas sem dúvida é um dos mais importantes. É necessário citar que ele integra o patrimônio do marxismo, mas que conseguiu superar dogmas destes e avançar para leituras menos estáticas da sociedade e da luta de classes. Entre suas várias contribuições, está o conceito de “revolução passiva” que ele entende como processos de mudança onde as classes de baixo pressionam, mas não conseguem chegar ao fim nos seus movimentos, na medida em que os de cima fazem concessões e se mantém na direção do processo. Se pensarmos na independência, abolição da escravidão, a proclamação da república, a revolução de 30, não foi isso o que aconteceu? Ele tem outros conceitos preciosos como “sociedade civil”, “intelectuais orgânicos”, “hegemonia” etc, que nos ajudam muito na interpretação de nosso tempo. 

TF: Falando em eleições. Você acha que Dilma se reelegerá?

Adelson: Não sei. Chega como favorita, mas há fatores que não se pode desprezar. Apenas ela está em campanha, inaugurando, falando em rede nacional etc. Na medida em que a Copa se aproxima e as manifestações aparecerem, será ela o alvo das insatisfações, como aconteceu no ano passado. Além do mais, já hoje ela mostra alto nível de rejeição. Resta saber, também, se as oposições conseguirão trazer um projeto de país que se mostre alternativo e capaz de absorver apoio popular. Até o momento não é isto que está acontecendo. 

TF: Você teve recentemente um pequeno atrito com o blogueiro Sérgio Boechat. O que aconteceu? 

Adelson: Eu gosto muito do Boechat, apesar de achá-lo um tanto “netofóbico”, mas é um homem inteligente, articulado, pensador. O episódio que você cita tem a ver com um artigo que ele publicou, onde dizia que todos que apoiam o atual governo municipal devem ser rechaçados na urna em Outubro. Respondi com outro artigo listando, o que seria pra mim, os erros de suas afirmações. Sem ser grande surpresa, ele entendeu como sendo tão somente uma defesa de Neto, e com isso me respondeu com mais dois outros textos, que usaram linguagens e desqualificações em relação a minha pessoa que me soaram ofensivas e desnecessárias. 

TF: Por fim, queria saber se você é otimista em relação ao futuro. 

Adelson: Tem um mote de Gramsci que sempre carrego comigo: “Otimismo da vontade, pessimismo da razão”. O que basicamente quer dizer que usando da razão, podemos nos tornar pessimistas, porque, de fato, a coisa não anda nada boa. Mas exatamente por isso devemos ser otimistas pela vontade, manter viva a chama da esperança. Considero-me um otimista da vontade. 


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